Tenho saudades de ti Saramago

Eu sei, ainda temos os livros, e teremos sempre. Mas sinto falta dele, das opiniões corrosivas, das verdades ditas com a mais absoluta crueza. E da sua imensa sintonia com as coisas mais simples da vida. Que falta me faz o homem que disse o seguinte: 

«A felicidade, fique o leitor sabendo, tem muitos rostos. Viajar é, provavelmente, um deles. Entregue as suas flores a quem sabe cuidar delas, e comece. Ou recomece. Nenhuma viagem é definitiva.»

Os amigos dos gatos são os outros gatos

Um dia alguém me disse que os amigos dos gatos são os outros gatos. É uma imagem poderosa, que nunca esqueci e com a qual me vou identificando cada vez mais. Não que os nossos amigos tenham de ser exactamente como nós, mas terão decerto pontos em comum importantes, senão fundamentais. Daí que este blogue tenha uma categoria que se chama outros gatos: refere-se aos amigos e à amizade e a tudo o que de bom daí advém.

Quando ouvi esta expressão pela primeira vez ainda achava que os gatos, no sentido literal, eram animais agressivos, que me tentariam matar com as suas garras afiadas mal chegassem perto de mim. Os olhos, o alvo primordial seriam os olhos. E eu morreria certamente assim que a ira felina se cumprisse.

Hoje, companheira feliz de dois felinos com personalidades tão distintas e marcadas, sempre que uso a expressão, digo ou penso que os amigos dos gatos são os outros gatos, sou invariavelmente inundada por um sentimento de ternura imenso, tranquilizador e confortável. Afinal, tudo o que, no essencial, a amizade deve ser.

Vejo imagens da Grécia e percebo que estamos todos lá

Dizem que a culpa é de grupos de extrema-esquerda, de jovens que se dedicam a provocar confrontos como estilo de vida. Mas as imagens não deixam margem para dúvidas: para além dos que encaixam nesse perfil, as pessoas que lá estão hoje, na Praça Syntagma, a protestar, a agredir e a levar pancada, têm também uma aparência familiar, próxima, distante dessa outra ideia pré-cozinhada, diria até requentada, que os média nos servem dia após dia. Estes homens que nas imagens publicadas hoje pelo Público online sucumbem à violência, a alimentam e lhe tentam ao mesmo tempo escapar, podiam ser o nosso pai, o nosso marido, o avô, o nosso tio, um irmão ou o primo mais velho. E isso dá que pensar. Estamos todos lá.

Voltei, voltei. Voltei de cá.

É um título estranho mas assenta-me na perfeição por estes dias. Não que a versão original do Dino Meira seja inteiramente desadequada, mas o regresso de que falo é mais interior do que físico. Portanto, Dino, não te chateies mas vou usar esta outra versão, bem mais em sintonia com o que por cá se passa. Voltei de cá e estou muito satisfeita com isso. :)